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Terça-feira, 21 de Abril de 2026
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Relojoaria resiste ao tempo, aos celulares e até à insegurança

Desde que se entende por gente, o cuiabano Jonilson Viana, de 54 anos, é apaixonado pelo ofício que herdou do pai: ser relojoeiro

Vale do Jauru
Por Vale do Jauru
Relojoaria resiste ao tempo, aos celulares e até à insegurança
A Redação
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Desde que se entende por gente, o cuiabano Jonilson Viana, de 54 anos, é apaixonado pelo ofício que herdou do pai: ser relojoeiro. Ele é um dos mais tradicionais profissionais desse ramo ainda em atividade na Capital.

Seu pai, José Viana – já falecido -, aprendeu a ser relojoeiro fazendo um curso por correspondência, depois que saiu do Exército. Um tempo depois, abriu sua primeira relojoaria, na Rua Cândido Mariano, região central de Cuiabá.

Porém, há quase 50 anos, a Relojoaria Universal atende em um modesto imóvel na Avenida Presidente Marques, próximo ao Colégio Liceu Cuiabano.

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O trabalho é artesanal, já que o ofício requer atenção e paciência. Dependendo do problema, o conserto de um relógio consome o dia todo de expediente.

José e Jonilson dividiram por décadas o trabalho, que hoje segue somente com Jonilson. Mesmo há tanto tempo no mesmo lugar, até hoje o prédio é alugado.

No local, Jonilson diz ter sido roubado cerca de 15 vezes. O último crime, ocorrido em 2019, foi o mais devastador. “Levaram tudo que eu tinha. Diversos relógios e até as ferramentas. Fiquei sem ter como trabalhar”, conta ele.

Foi nesse momento que Jonilson pensou em desistir da profissão e fechar as portas, pois não aguentava mais ser vítima de criminosos. Porém, ele ama o que faz e não sabe fazer outra coisa.

“O dia em que cheguei em 2019 e encontrei todos os cadeados arrebentados, pedaços da parede arrancados, a grade toda quebrada e os itens roubados, pensei que não daria mais. Mas a única coisa que sei fazer é consertar relógio. Se eu sair daqui, vou passar fome. Então pensei: vou reformar e bola pra frente”.

Hoje conta que não tem mais medo. “Se depois dessa vez que levaram tudo eu continuei, Deus me deu essa força, não tem como eu parar mais”.

Para conseguir seguir em frente depois desse baque, ele não estava sozinho. “Tive que ser ajudado por clientes, parentes e o pessoal da igreja. Me apoiaram muito nesse período”, conta.

A clientela ele cativa. Grande parte são pessoas de certo poder aquisitivo, que viram os pais consertarem seus relógios e continuam a fazer isso com os seus hoje em dia. Alguns estão com ele há décadas.

Porém, uma pessoa não leva seu relógio para consertar todo dia, ou toda semana. Com o advento dos celulares e relógios digitais, menos ainda. Ele assiste sua profissão se tornar cada dia mais obsoleta neste mundo moderno de cultura consumista, onde as pessoas preferem comprar um novo a consertar.

 “Tinha muito serviço, aqui paravam bicicletas da porta até a esquina, era serviço que não parava o dia todo”.

Hoje, há dias em que não há serviço. “Hoje é para sobreviver. Você não tem mais aquele ganho… Eu deixo uma conta pra trás e pago outra que está mais atrasada”, diz.

Segundo o relojoeiro, o pior inimigo foram os celulares. “Até o início da década passada eu tinha muito serviço, mas com a popularização do celular, foi começando a cair. Não foi nem com os [relógios] digitais, foi com o celular”, conta.

No combo de tudo isso, veio a pandemia de Covid-19. “A pandemia foi muito difícil. Moro de aluguel e a relojoaria também é de aluguel. Hoje não tem 50%, 60% do serviço que eu tinha antes da pandemia”, analisa ele.

Perguntado se tem medo de que possa chegar um dia que tenha de fechar as portas, ele se mantém otimista. “Se depender de mim e de Deus, vou ficar aqui até aguentar, até o final da minha vida. Enquanto tiver relógio nesse mundo e eu tiver força para vir trabalhar, vou estar aqui firme e forte”.

“Só fecho as portas quando eu não puder mesmo, quando estiver velhinho”.

Se dependesse dele, mesmo assim, o negócio não fecharia. Isso porque ele tem ensinado o ofício a sua filha do meio, de 19 anos.

“Ela pega rápido, mas é apreensiva, e isso aqui precisa de paciência. As peças são muito pequenas, exigem atenção” conta rindo. O interesse da filha, porém, é abrir uma loja de conserto de celulares. “Mas se ela precisar algum dia, vai saber”, diz sobre os ensinamentos de relojoaria.

Jonilson tem três filhas. A mais velha mora em uma casa que ele deu, enquanto ele e a esposa se mudaram para uma de aluguel. A mais nova tem 2 anos e veio de surpresa em uma gravidez inesperada da esposa em 2020.

Os certificados, que resistem nas paredes à passagem do tempo

Família é muito importante para ele. Desde que o pai se aposentou, ele deixa a mesa do velho no mesmo lugar e nunca a usa.

Os certificados do pai também ainda estão colados na parede, dividindo espaço com os vários relógios fazendo tic tac, quase se desfazendo com a ação do tempo.

Seu José teve doença de Parkinson e, mesmo debilitado, Jonilson o levava toda semana para a relojoaria, para lhe fazer companhia.

Para seu José, era uma distração, sair um pouco de casa, além de que ele adorava o fato de estar presente no lugar em que trabalhou por boa parte de sua vida.

Seu José faleceu em 2021 prestes a completar 80 anos, por complicações da idade.

Com muito respeito e admiração, sentidas toda vez que fala sobre o pai, Jonilson continua na atividade que aprendeu a amar com ele.

“Vou indo até onde Deus permitir”, finaliza.

FONTE/CRÉDITOS: MT diário
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